Docentes de Ribeirão Preto farão capacitação do Eu Tenho Voz na Rede

A idealizadora e coordenadora do Projeto Eu Tenho Voz na Rede e 2ª vice-presidente do Instituto Paulista de Magistrados (IPAM), juíza Hertha Helena Rollemberg Padilha de Oliveira, participou nesta quinta-feira (7) de programação especial organizada pela Secretaria Municipal da Educação de Ribeirão Preto em homenagem ao Dia do Professor.

Durante uma live via canal YouTube, da qual participaram cerca de 170 profissionais de escolas da rede pública de Ribeirão Preto, a 2ª vice-presidente do IPAM apresentou números da violência sexual contra crianças e adolescentes, detalhou o projeto que leva orientação e sensibilização aos alunos da rede pública de educação sobre o abuso sexual de crianças e adolescentes por meio de vídeo narrativas, apresentou a vídeo narrativa “História de Marias” sobre abuso sexual contra meninas,  e ainda participou de debate sobre o tema “Direitos Humanos e combate ao abuso e exploração sexual infantil”. O evento contou ainda com a presença do professor Rafael Anjos, que conduziu o debate.

“O Projeto Eu Tenho Voz não seria possível sem a participação dos professores e do apoio de todas as Secretarias de Educação. A educação é o principal pilar de uma sociedade. Infelizmente a nossa sociedade escolheu não enxergar o problema do abuso sexual”, disse a juíza Hertha Helena de Oliveira, para em seguida contar  como surgiu o projeto: “Quando iniciei minha carreira eu não tinha ideia de que ia me deparar com casos de violência contra a criança. A violência física deixa marcas, mas é mais fácil de se identificar. Já a violência sexual é velada, ocorre no oculto, e na grande maioria das vezes no meio familiar. Nos deparamos permanentemente com casos de violência sexual, seja na Vara da Infância, na Vara da Família e por vezes na Vara Criminal, para julgar quem praticou o abuso contra a criança. Daí veio a ideia do projeto Eu Tenho Voz, para sanar a nossa angústia e dar voz às crianças que são vítimas há muito tempo de abuso sexual até se descobrir o que está acontecendo”.

A juíza explicou também o que leva a criança e o adolescente a esconderem por tanto tempo a violência. “O abuso sexual perdura por muito tempo por causa da síndrome da adição do abusador, que repete a conduta violenta e ameaça a criança. E pelo lado da criança tem a síndrome do segredo, que permite que a relação abusiva perdure por tanto tempo porque a vítima não consegue contar a ninguém e além de ser ameaçada, muitas vezes se sente culpada. Existem mais inúmeros fatores que levam a criança a sofrer esse tipo de abuso calada. E o projeto tem foco exatamente na síndrome do segredo. Em nossas apresentações nas escolas o nosso discurso é para que a criança tenha coragem de contar e se sinta em segurança para buscar socorro”.

A 2ª vice-presidente do IPAM contou ainda como surgiu a versão digital do projeto. “Com a pandemia os números de violência e abuso sexual só tendem a aumentar, porque as crianças e os adolescentes ficam reclusos em casa com seus abusadores. Por essa razão resolvemos criar a versão digital do projeto, porque esse trabalho de prevenção e sensibilização dos jovens precisa continuar e ser cada vez mais intensificado, já que as estatísticas não param de subir”, afirmou.

O instrumento de sensibilização para as crianças é a peça teatral Marcas da Infância, roteirizada e encenada pela Cia. NarrAr Histórias Teatralizadas especialmente para o projeto, e que apresenta às crianças, nas próprias dependências das escolas, a questão do abuso infantil de forma lúdica, realista e empática. Com a pandemia, o projeto utiliza agora quatro vídeo narrativas, Marcas da Infância: Vozes na Nuvem, também criadas pela Cia. NarrAr, e que abordam casos de crianças, tanto do sexo feminino quanto do masculino, que fizeram denúncias e deixaram de sofrer abusos sexuais nos cinco anos de existência do projeto.

Por fim, a juíza Hertha Helena de Oliveira mostrou os números da violência sexual contra crianças e adolescentes. “Dados registrados em 2020, pelo Ministério da Saúde, mostram que ocorrem 6 casos por dia de aborto de meninas com menos de 14 anos. E dos registros de estupro, no mesmo ano, 76% são de vulneráveis, sendo 60% meninas com menos de 13 anos. No total, 46 mil crianças e adolescentes foram vítimas de crime sexual em 2020, 24 mil dessas crianças tinham menos de 11 anos”, e conclui: “Esses dados atualizados são reveladores de uma percepção que já tínhamos da pandemia. As crianças ficaram em casa, sem acesso à escola, sem acesso às pessoas de confiança, e muitas vezes essas crianças ficaram presas nas suas casas com seus agressores. Em nosso trabalho, o Eu Tenho Voz recebe as denúncias pelo site, mas nenhuma denúncia entrou nesse período e houve 14,1% de redução dos casos de estupro, porque as vítimas não tinham como reportar. As crianças perderam o acesso a essa rede de proteção”.

O professor Rafael Anjos encerrou o debate convocando seus professores a participar da rede de proteção no município: “Temos um grupo de profissionais que estão envolvidos e sabem da existência do projeto Eu Tenho Voz na Rede e nós queremos trazê-los para fortalecer a nossa rede de proteção de crianças e adolescentes, que precisa muito ser fortalecida. O melhor caminho é que os nossos professores estejam bem informados e formados sobre o tema abuso sexual para encaminhar da melhor forma nossas crianças que sofrem esse tipo de violência”.

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