Roda de Conversa do Projeto Eu Tenho Voz reúne docentes de Piracicaba

O IPAM realizou na ultima quinta-feira (3) uma roda de conversa on-line com cerca de 50 docentes da primeira turma de educadores que concluiu o “Curso de Capacitação Básica para Prevenção e Combate ao Abuso Sexual de Crianças e Adolescentes” promovido pelo Instituto na modalidade EAD. Integrada por professores de escolas públicas municipais de Piracicaba, a primeira turma do curso a distância do Projeto Eu Tenho Voz na Rede teve mais de 100 inscritos, indicados pela Secretaria de Educação de Piracicaba, parceira do projeto.

A nova modalidade do curso é uma variação e extensão digital do projeto presencial Eu Tenho Voz, que desde 2016 busca informar e sensibilizar crianças e adolescentes sobre a violência e o abuso sexual e capacitar os professores e educadores das escolas do Ensino Fundamental I e II para identificação e acolhimento das vítimas. As principais ações do projeto foram adaptadas à nova realidade do distanciamento social provocado pela pandemia, como as palestras de magistrados e especialistas, bem como as narrativas artísticas sobre o tema desenvolvidas pelos profissionais da Cia NarrAr Histórias Teatralizadas, sendo apresentadas na modalidade a distância através de plataforma EAD própria do IPAM.

A próxima etapa do Projeto Eu Tenho Voz na Rede em Piracicaba será a apresentação das narrativas artísticas para grupos de alunos nas escolas municipais, com a intermediação e supervisão de professores e a participação on-line de um juiz ou promotor, promovendo um diálogo com as crianças, tirando suas dúvidas e ouvindo eventuais denúncias.

“A questão do abuso sexual é um tema muito difícil de ser abordado. Por essa razão escolhemos a arte e as narrativas da Cia NarrAr para educar os alunos de uma forma lúdica contra o abuso sexual. 80% dos abusos de crianças e adolescentes são praticados por pessoas conhecidas, dentro da casa da criança e do adolescente, ou em local de convívio da rede familiar, sendo que 60% dos abusadores são pais, padrastos, tios ou avós. Com a pandemia, as vítimas estão presas dentro de casa com seus algozes, e assim como a família tem dificuldades em lidar com o abuso sexual, também os professores têm dificuldades em abordar o tema. Por essa razão o IPAM criou o curso de capacitação, que agora é apresentado na modalidade remota”, disse na abertura do encontro on-line a juíza Hertha Helena Rollemberg Padilha de Oliveira, 2ª vice-presidente do IPAM e idealizadora e coordenadora do projeto.

Segundo a juíza, a escola é um reduto de segurança das crianças que sofrem violência doméstica. “Depois desse tempo de pandemia, essas crianças vão voltar às aulas presenciais com muitas denúncias. E os educadores são fundamentais para lidar com essa realidade violenta e precisam estar em rede compartilhando suas dificuldades e fazendo os encaminhamentos das denúncias”, afirmou.

Hertha Helena de Oliveira destacou para os docentes que concluíram o curso que, “mesmo diante de uma realidade difícil de falta de recursos, os professores que trabalham nas escolas de periferia desempenham um papel heroico e são fundamentais na vida desses alunos, ouvindo-os em um momento crucial, que é o da volta para o ensino presencial”. E fez um alerta: “O professor que recebe a denúncia precisa encaminhá-la ao Conselho Tutelar e à Justiça, ou poderá ser responsabilizado por omissão”.

Ana Cristina Moura, assistente social que atua no Centro Nacional de Referência das Vítimas de Violência (CNRVV), instituição também parceira do projeto, orientou os docentes dizendo que “os professores têm a vantagem de estar em um espaço privilegiado, que a criança frequenta diariamente e onde passa um grande período de tempo. Com a nova lei, da escuta e do depoimento, a escola foi eleita o espaço de prevenção. Dá para fazer uma série de atividades para que a criança entenda o que é normal, ou não, ser feito com ela e com o seu corpo, e perceba o que é violência e o que está transgredindo o limite. Por isso é muito importante os professores estarem capacitados, trocar experiências em rede de como fazer os encaminhamentos em casos de violência física, psicológica e/ou sexual, para quando isso acontecer não serem pegos de surpresa e ficarem paralisados sem saber como agir”.

Erica Eugenio, supervisora da Secretaria de Educação de Piracicaba, lembrou que é muito difícil para a criança que sofre abuso ter voz e pedir ajuda. “Elas querem contar o que sentem, mas não sabem pedir socorro, e se tornam cada vez mais revoltadas e violentas. Nós, da Secretaria da Educação de Piracicaba, estamos o tempo todo falando com os professores e, infelizmente, já tivemos muitos casos aqui. Agora com a rede de proteção do projeto, poderemos compartilhar nossas experiências e dar andamento de uma forma mais eficiente nos casos”.

Mara Martins, também supervisora da Secretaria da Educação de Piracicaba, disse que “a roda de conversa on-line veio ao encontro das necessidades de professores da rede municipal da cidade. Precisamos muito dessa parceria e desse apoio. Com certeza, quando as aulas retornarem, esses casos de violência e abuso sexual vão aparecer, e nossos professores vão saber como lidar”.

A guarda civil municipal em Piracicaba, Alice da Silva Romualdo, lembrou que há uma parceria com a Secretaria da Educação local no projeto GCEP – Guarda Civil Educação é Prevenção, cujo trabalho é orientar adolescentes, por meio de uma cartilha, contra uso de drogas, gravidez precoce e violência doméstica. “Quando há casos de violência doméstica, geralmente as crianças se abrem sobre alguma situação constrangedora. Com essa rede de proteção podemos compartilhar casos e pensar a melhor forma de resolver para que a criança não fique tão impactada”, afirmou.

Por fim, a juíza Hertha Helena de Oliveira orientou os educadores a sempre que fizerem uma denúncia ao Conselho Tutelar enviar uma cópia ao Ministério Público. E, em casos de escolas localizadas em áreas de vulnerabilidade social, fazer a denúncia anônima por meio do Disque 100, 181 ou no site do projeto www.projetoeutenhovoz.com.br.

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